domingo, 23 de abril de 2017

O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.

Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.

– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.

E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.

– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.

Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes.

Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.

Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.

Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.

Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão.

Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, internet, e-mail, Whatsapp ... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... Ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.

Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...

Que saudade do compadre e da comadre!...

(José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei).

O LIVRO DE "PERPÉTUA" - MARIA DO PERPETUO SOCORRO WANDERLEY DE CASTRO



II - BREVIDADE

Jorge Fernandes fixou - No meu tempo, a luz elétrica vinha com a lua. O verso combina com tantas cidades do interior do Brasil e do Rio Grande do Norte. Posso, portanto, dizê-lo ao falar do Assu.

Nasci em Assu, uma das mais antigas cidades do Estado, orgulhoso de um passado tradicional, marcado por ter tido jornal semanal em 1867, por ter sido a segunda Comarca criada pela Lei Provincial n. 13, de 11 de março de 1835 tendo como primeiro juiz Basílio Quaresma Torreão Júnior, a freguesia de São João Batista da Ribeira do Assu em 1726, a segunda cidade a libertar os escravos, em 24 de junho de 1885. Criei-me ouvindo estórias de trancoso, ainda do tempo em que se falava da moura torta e da pobre menina enterrada pela madrasta malvada e ouvindo estórias dos fatos da cidade, como a angústia do grande incêndio ocorrido em 1951 de que resultou a destruição de casa integrante do conjunto arquitetônico da velha rua Casa Grande, a estupefação co a chegada do primeiro carro, um Ford que causou assombro, assim como tempos depois o avião causara medo. Vivi o cotidiano da cidade do interior, com as crenças e temores dos mais velhos, falando ainda sobre botijas, sobre becos mal-assombrados, sobre aparições e fantasmas.

Naquele tempo, a luz elétrica chegava com o por do sol, quando o velho moto era ligado e, ordinariamente, desligado ao meio da noite, após os três sinais que anunciavam verdadeiro toque de recolher, pois a cidade se recolhia à escuridão. E as noites eram, ainda, adoçadas por sons de violões e serenatas, frequentemente permeadas pela declamação de versos e pela acolhida hospitaleira dos donos das casas escolhidas, que serviam bebidas e petiscos aos seresteiros. A cidade desfrutava de luz elétrica desde 1927 o que permitia as sessões de cinema, festas em clubes e pequenas festas em locais como a Casa da Juventude, cuja lembrança se enche do som redondo da bola de ping-pong, nas mesas ali instaladas.

Vivi o início da adolescência andando em suas ruas ainda não calçadas, no caminho diário para as aulas no Colégio Nossa Senhora das Vitórias, na diversão domingueira dos banhos de rio. Era uma vida calma, então igual à de cinquenta anos atrás, nas mesmas ruas, nos mesmos costumes, marcantemente rígidos e tradicionais. Em 1966, ouvia-se, e mal, através do rádio, as transmissões dos jogos no México,. Nesse intervalo de quatro anos, a cidade mudara profundamente, mais do que levara a se modificar durante décadas, em que o tempo passara quase imperceptivelmente. Com a televisão, o espaço e a distância diminuíram.

A geração que assistia a esta mudança passou a viver em conformidade com ela e com as possibilidade e oportunidades que gerou. Mas os dias idos, dias de infância e adolescência ficaram acumulados pela vida afora, como pequeno tesouro de bem querença.

Este é, contudo um registro incompleto. Faltam pessoas, faltam lugares, que estão entro das lembranças e são importantes na vida e na paisagem sentimental da cidade. Mais alguns dias, ou anos que são apenas somas de dias, e poderei acrescentar o que falta agora, mas, sempre, será inconclusa a obra.

Este é, contudo um registro incompleto. Faltam pessoas, faltam lugares, que estão entro das lembranças e são importantes na vida e na paisagem sentimental da cidade. Mais alguns dias, ou anos que são apenas somas de dias, e poderei acrescentar o que falta agora, mas, sempre, será inconclusa a obra.

sexta-feira, 21 de abril de 2017





João Lins Caldas era um poeta Norte-rio-grandense de extrema sensibilidade e criatividade. Desde moço teve uma vida solitária. Os seus escritos retrata a dor, a melancolia, o amor não correspondido. É de sua autoria, o soneto que transcrevo adiante, produzido no Rio de Janeiro em 2 de janeiro de 1913, publicado na importante revista carioca intitulada Fon-Fon,  numa das edições daquele periódico (1924), que diz assim:

Minha’alma anda a chorar... Anda-me ao peito
Uma agonia louca, uma tortura...
Venho da terra do feral despeito...

Mudado sobre mim o teu conceito
Acenadora, pérfida ventura,
A noite vejo, poderosa, escura,
Do meu sonho de amor, sonho desfeito...

Deixa que eu vá... e tu, que és minha vida,
Não te magoes com a dor ferida,
- Mulher, mulher – amor, sonho – de calma...

Eu sou teu sonho e teu sonhar sonhando...
Não me queiras seguir... comigo andando
Há de chegar a noite da tu’alma...



SESSÃO SOLENE. COLÉGIO NOSSA SENHORA DAS VITORIAS

 Título do blog.

 

Sessão Solene ENSV

90 Anos… Expressa-se em nove décadas uma das mais valiosas histórias da educação assuense, construída sob a égide do carisma do Amor Divino.

O Educandário Nossa Senhora das Vitórias, neste dia 20 de abril de 2017, participou de uma sessão solene na Câmara Municipal de Assú, por meio da vereadora Delkiza Cavalcante, que propôs uma homenagem à Escola em reconhecimento à valiosa contribuição que vem sendo dada desde 1927, à educação comprometida com a formação integral e cristã de crianças e jovens, construtores de uma sociedade mais humanizada e fraterna.

Na ocasião prestou – se uma homenagem às ex-diretoras e diretora atual, Irmã Maricélia Almeida de Farias, que receberam Comendas com Moção de Aplauso. Foi um momento que emocionou a todos os presentes e que demonstrou a grandeza de pais, alunos e familiares. Vejam as fotos feitas por Dedé Ramalho.



http://www.dederamalho.com.br


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